Na política brasileira, existe uma espécie de superstição eleitoral que atravessa décadas: acreditar que juntar prefeitos, vereadores, “lideranças” e caciques regionais no mesmo palanque é sinônimo de vitória garantida. É a velha matemática do poder: soma-se meia dúzia de fotos, alguns apertos de mão, caravanas, discursos ensaiados e pronto — na cabeça de muita gente, a eleição estaria resolvida.
Mas a realidade costuma ser menos gentil com os arquitetos dessas alianças de gabinete.
Ter apoio político fortalece candidatura, amplia estrutura, gera tempo de televisão, combustível para agenda e uma legião de bajuladores profissionais. O problema é quando confundem isso com apoio popular. São coisas diferentes — e, em muitos casos, completamente opostas.
Existe uma pergunta que raramente aparece nas reuniões estratégicas: o povo aprova essas lideranças que estão declarando apoio?
Porque há prefeitos que sobem no palanque carregando não votos, mas rejeição. Alguns chegam ao fim do mandato tão desgastados que transferem ao candidato apoiado exatamente aquilo que construíram ao longo da gestão: desgaste, revolta e desconfiança. Nesse caso, o abraço político vira quase um afogamento eleitoral.
Ainda assim, a classe política insiste no teatro das multidões institucionais. Conta-se prefeito como quem conta cabeça de gado. “Temos apoio em cinquenta municípios”, anunciam com pompa. Só esquecem de combinar com o eleitor — essa inconveniente criatura que, de quatro em quatro anos, descobre que o voto ainda é secreto.
E é justamente aí que muitos projetos naufragam.
Porque o eleitor não vota necessariamente na vontade do prefeito, do deputado ou do padrinho político. Muitas vezes, vota contra eles. O sentimento popular nem sempre acompanha os acordos costurados nos bastidores refrigerados da política. Há cidades em que o povo escuta o discurso oficial apenas para fazer exatamente o contrário na urna.
Claro, existem exceções. Quando um gestor é bem avaliado, entrega resultados e mantém credibilidade junto à população, seu apoio pode ter peso real. Nesse cenário, há transferência legítima de aprovação. O prefeito deixa de ser apenas um operador político e passa a funcionar como avalista popular.
Mas isso exige algo raro em certos ambientes políticos: aprovação verdadeira, e não apenas claque organizada.
No fim das contas, eleição não se vence apenas com articulação, fotografia de convenção ou declaração de apoio publicada em rede social. Política não é campeonato de prefeitos aliados. É disputa de sentimento popular.
E o eleitor, felizmente, continua tendo o péssimo hábito de pensar por conta própria.


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