Carlos A. Silva

A inteligência, infelizmente, também pode ser colocada a serviço da desinformação. E talvez o Brasil fosse um país melhor se parte dessa energia usada para espalhar boatos, distorções e fantasias fosse direcionada à divulgação de conhecimento e de informações verdadeiras sobre o que, de fato, acontece no país.

Vivemos a era em que muita gente não apenas acredita nas próprias mentiras, mas passa a tratá-las como missão de vida. E o mais impressionante: tentam convencer os outros de suas “verdades alternativas”, embaladas em vídeos duvidosos, manchetes manipuladas e discursos inflamados. A antiga fofoca de esquina ganhou internet, edição de vídeo e trilha sonora dramática.

Há quem defenda, com a mão no peito e pose de paladino, o fim da corrupção. Mas basta o corrupto ser “do lado certo” para a indignação entrar em recesso. A régua moral muda conforme a conveniência política, ideológica ou eleitoral. Afinal, no Brasil contemporâneo, combater a corrupção virou menos uma questão de princípio e mais uma disputa de torcida organizada.

Ser contra ou a favor? Depende de quem pratica, de quem acusa e, principalmente, de quem lucra politicamente com o escândalo da vez. O corrupto adversário é tratado como inimigo da pátria. Já o corrupto aliado recebe o apelido carinhoso de “perseguido”, “injustiçado” ou “vítima do sistema”. E assim a ética vai sendo maquiada até caber no bolso da conveniência.

Todos os dias vemos corruptos sendo transformados em deuses terrenos, muitas vezes premiados, ovacionados e blindados por parcelas da sociedade que juram defender a moral e os bons costumes. São os falsos moralistas de sempre: condenam o erro no discurso, mas o abraçam no silêncio quando lhes convém.

No fim, a corrupção talvez não sobreviva apenas pela ação dos corruptos, mas principalmente pela devoção dos que fingem combatê-la enquanto aplaudem seus protagonistas favoritos.