A final da Copa do Mundo terminou com um campeão, mas também com um velho derrotado: o espírito esportivo.
O futebol adora vender a imagem de que é a linguagem universal da paz. Antes de cada partida, jogadores se abraçam, posam para fotografias e exibem faixas estampadas com a palavra Fair Play. Bonito na propaganda. Pena que, em alguns momentos, tudo isso parece durar apenas até o primeiro apito.
A final da Copa do Mundo foi um retrato dessa contradição. O mundo esperava um espetáculo de técnica e competitividade. Recebeu, em seus minutos finais, uma coleção de empurrões, provocações e cenas que pouco têm a ver com o esporte. O troféu encontrou um dono. O respeito, esse saiu de campo antes mesmo do encerramento da partida.
Quando uma seleção transforma a frustração da derrota em confusão, perde muito mais do que um título. Perde a razão. O uniforme de uma equipe nacional não concede licença para desrespeitar adversários, árbitros ou torcedores. Pelo contrário: exige responsabilidade. Saber vencer é mérito; saber perder é caráter.
Mas seria ingenuidade colocar toda a responsabilidade apenas nos atletas. A organização da competição também precisa olhar para o espelho. Afinal, para que tanta tecnologia, tantos recursos e tantas promessas de transparência se o chamado fair play parece ser aplicado conforme a conveniência? O VAR enxerga centímetros em um impedimento, mas, por vezes, parece míope quando o assunto é comportamento antidesportivo.
Ao longo do torneio, decisões controversas alimentaram debates e levantaram dúvidas sobre a uniformidade dos critérios da arbitragem. Quando a impressão de tratamento desigual ganha força, instala-se um ambiente em que a reclamação substitui o futebol. E esse é um jogo que ninguém deveria vencer.
O Brasil também não tem motivos para subir ao púlpito e distribuir sermões. A campanha brasileira esteve longe do esperado e expôs problemas técnicos, táticos e emocionais que precisam ser enfrentados com humildade. Antes de apontar o dedo para os outros, convém lembrar que quatro dedos continuam voltados para quem acusa.
A Espanha mostrou, dentro de campo, por que levantou a taça. Venceu porque jogou melhor, foi mais organizada, manteve o equilíbrio e soube administrar a pressão de uma decisão. O futebol continua premiando quem alia talento, disciplina e inteligência coletiva — não quem aposta na intimidação quando a bola já não resolve.
A Copa termina deixando uma pergunta inevitável: o fair play continuará sendo apenas um slogan estampado em banners e telões ou voltará a ser um princípio levado a sério? Porque, se o jogo limpo continuar restrito ao marketing, talvez seja hora de trocar a expressão. Afinal, o que o mundo viu na decisão esteve muito distante dela.
No fim das contas, a maior derrota da final não apareceu no placar. Ela ficou registrada nas imagens que correram o mundo e lembraram que, quando o respeito deixa o campo, o futebol perde um pouco da sua própria essência.


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